Garota Exemplar (2014)
2.1.15Título original: Gone Girl. Ano: 2014. Gênero: Suspense. Duração: 149 minutos. País: EUA. Direção: David Fincher. Roteiro: Gillian Flynn. Elenco: Rosamund Pike, Ben Affleck, Neil Patrick Harris, Tyler Perry, Carrie Coon, Kim Dickens, Patrick Fugit, David Clennon, Lisa Banes, Missi Pyle.
David Fincher sempre foi um ótimo diretor, mas confesso que não estava muito empolgada pra ver Garota Exemplar, pois julgava ser um filme de drama com um tom parecido com O Curioso Caso de Benjamin Button (2008), do qual não gosto muito. Como eu estava enganada. Garota Exemplar é muito melhor que Button e, sinceramente, é o melhor filme de Fincher desde Zodíaco (2007).
Baseado no livro homônimo de Gillian Flynn – e roteirizado por ela –, Garota Exemplar conta a história de Nick (Ben Affleck), um escritor envolto na investigação do desaparecimento de sua esposa Amy (Rosamund Pike) que acaba se tornando suspeito do crime. Dá vontade de dizer mais do que isso, mas aí se corre o risco de spoilers e a graça do filme está em justamente acompanhar todas as suas muitas e surpreendentes reviravoltas.
Mas as surpresas não são as únicas qualidades do filme, sua estrutura narrativa também é excelente! A história é narrada sob dois pontos de vista, a do presente, centrado em Nick, e a do passado, narrado por Amy em seu diário. É interessante como é construído o contraste entre os dois momentos: enquanto o passado é narrado pela voz etérea de Amy de maneira romântica e quase fabulesca, acompanhado de diálogos surreais, uma trilha sonora calma e misteriosa e transições suaves por meio de fades, cortes bruscos e sons secos nos trazem de volta ao presente – como o som da roleta de plástico do jogo de tabuleiro que Nick joga com a irmã – acompanhado de diálogos mais reais, cheios de palavrão e ressentimento, que denotam o desgaste no relacionamento do casal. No presente, grandes momentos de revelação são marcados por uma súbita e grave trilha sonora, aos moldes de Inception (2010).
A fotografia do filme, de Jeff Cronenweth – o mesmo de Clube da Luta e Rede Social –, também é belíssima. Eu adoro quando cenas são gravadas no início da manhã ou no final da tarde e toda a abertura de Garota Exemplar se passa durante um amanhecer. Além disso, destaque para as cenas de flashback, que adquirem ainda mais um tom de fábula com a composição dos quadros e a iluminação, como quando o casal desce de elevador para a rua e apenas seus rostos são iluminados pelo recorte de luz ou na marcante cena do primeiro beijo do casal, sob uma chuva de grãos de açúcar em meio a uma madrugada fria de Nova York. É interessante notar, no entanto, que apesar de continuar interessante ao longo de todo o filme, a fotografia deixa de ser nosso foco de atenção da metade para o final, tamanha é a nossa imersão na narrativa e a riqueza de seus personagens.
Revelações sobre Nick e Amy surgem aos poucos e com a mais absoluta calma no filme. Parece que há uma intenção de dar tempo para o público se acostumar com seus personagens para então uma nova informação surgir e desconstruir o que achávamos que sabíamos até então. São personagens com bastante profundidade, nuances e contradições, muito bem representadas pelas excelentes atuações de Ben Affleck e Rosamund Pike, com maior destaque a esta que certamente irá concorrer ao Oscar pelo papel.
Enfim, não quero me estender muito, mas o filme é simplesmente surpreendente! Ao menos que se tenha lido o livro antes – e nesse caso é uma pena, pois tudo vai soar mais óbvio e esperado –, é impossível adivinhar a resolução do filme, que, no entanto, é perfeita e condizente com tudo o que nos foi apresentado. Garota Exemplar entra fácil na minha lista de melhores filmes de 2014.
Atenção! O texto abaixo contém spoilers!
É maravilhoso como não temos certeza alguma sobre a índole dos personagens da trama. No início, tudo faz crer na culpa de Nick mas tão logo surgem os pais de Amy, com sua frieza e discurso pronto sobre o desaparecimento da filha para a imprensa, que se começa a desconfiar se eles não estão por trás de tudo para vender ainda mais sua personagem fictícia Amazing Amy. Além disso, muitas coisas parecem fora de lugar na trama, os diálogos nos flashbacks soam falsos, forçados, as ações dos personagens se alternam ou escalam muito rapidamente e parece sempre que há algo fora de lugar. No presente, a reação, ou melhor, ausência de reação de Nick com o desaparecimento da esposa também chama a atenção, mas tudo vai fazendo sentido à medida que fatos nos são revelados e eu achei tudo isso muito bem pensado.
O final, com a música onírica que marcou todos os flashbacks também finaliza com chave de ouro essa história, reforçando o tom de história absurda, espécie de lenda, presente em toda a trama. No final, tudo vira parte do passado e nunca a frase dita por Amy no início do filme faz tanto sentido: "We have each other, everything else is background noise" ("temos um ao outro, o resto é ruído de fundo").


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